Existe um desconforto latente na medula da sociedade brasileira, uma sensação persistente de que "algo deu errado". Historicamente dividida e em constante tensão, a população sente o peso de uma engrenagem que range, mas não avança. Para conter essas tensões e forjar uma coesão social artificial, as elites construíram uma "história oficial" — uma narrativa higienizada que funciona como um potente anestésico social.
A pesquisa de Hugo Santarem Rodrigues estilhaça esse mito fundador da República. Não estamos diante de uma simples onda migratória de braços cansados em busca de oportunidade; a tese central de Santar revela que o Brasil, após o golpe de 15 de novembro de 1889, foi submetido a um processo planejado de recolonização. O que chamamos de "imigração" foi, na verdade, uma engenharia social de substituição demográfica, desenhada para silenciar o nativo e consolidar um sistema de exclusão que é a raiz da nossa abissal desigualdade contemporânea.
A historiografia tradicional trata a proclamação da República como um movimento isolado de progresso, mas a realidade documental conecta o golpe de 1889 diretamente à Conferência de Berlim (1884-1885). Enquanto as potências europeias partilhavam a África, o Brasil republicano adotava internamente os mesmos sistemas coloniais internacionais. O regime positivista não apenas se inspirou no Novo Imperialismo, como cooperou ativamente com companhias colonizadoras estrangeiras — alemãs, italianas, japonesas e britânicas.
O território brasileiro tornou-se um dos principais destinos mundiais de uma colonização dirigida, financiada por subsídios públicos e operada por empresas privadas que funcionavam como estados dentro do Estado.
"A mentira que sempre nos contaram é que o Brasil não tomou parte desse processo que mudou inteiramente o mundo."
Não há compreensão possível desta realidade sem encarar o conceito de Colonialismo de Povoamento, formulado por Patrick Wolf. Diferente da colonização de exploração, esta modalidade opera pela lógica da eliminação: o objetivo não é apenas explorar o trabalho do nativo, mas eliminá-lo ou deslocá-lo para substituí-lo por colonos estrangeiros, construindo uma nova sociedade sobre o território expropriado.
A grande manobra do Estado brasileiro foi a substituição do termo "colonizador" por "imigrante". Enquanto "colonizador" evoca a invasão e a violência, "imigrante" sugere o pioneirismo heroico e a busca por progresso. Essa troca de nomes operou um apagamento do caráter invasivo da ocupação territorial republicana e transformando a expropriação em "desenvolvimento".
Um dos pilares mais brutais dessa recolonização foi a segregação institucionalizada por decretos. Longe de promover a integração, a República agiu para impedir que o brasileiro nato tivesse acesso à terra, reservando as melhores áreas e toda a infraestrutura estatal para o estrangeiro europeu.
A pesquisa de Hugo Santar detalha como o Estado limitou a presença de nacionais em colônias oficiais:
Teto de 25%: Estabelecido pelo Decreto 528 de 1890 para famílias nacionais em colônias com infraestrutura do governo.Teto de 20%: Fixado pelo Decreto Estadual de SP nº 272 (1894) para lotes rurais.Teto de 10%: Determinado pelo Decreto nº 645 (1907) para núcleos auxiliados pela União.
A lei era explícita: o brasileiro era admitido nesses núcleos apenas para a "transferência de saberes", ou seja, para ensinar aos estrangeiros as técnicas de cultivo locais (permutar ensinamentos práticos). O nacional foi relegado a uma posição de subalternidade funcional, servindo como um "ajudante" em seu próprio território, enquanto o colono recebia o título de proprietário e o crédito estatal.
Para viabilizar essa substituição demográfica, a República importou da Austrália colonial o Sistema Torrens. Essa ferramenta jurídica utilizava a raça como critério de posse, baseada na doutrina da Terra Nullius (terra de ninguém). Sob esse pretexto, territórios ocupados por populações consideradas "não civilizadas" (indígenas, pretos e mestiços) eram declarados vagos e entregues a companhias colonizadoras.
Decretado em 31 de maio de 1890 por Rui Barbosa, o Sistema Torrens gerou títulos de terra irrevogáveis que serviam como ativos financeiros, criando riquezas geracionais exclusivas para os novos colonos. Mas esse sistema foi batizado em sangue. A imposição dessa ordem territorial resultou em massacres e guerras civis — como a Revolução Federalista, Canudos e o Contestado — que somaram mais de 50.000 mortos. Foi uma guerra de extermínio contra o brasileiro para abrir caminho ao "progresso" estrangeiro.
A base intelectual dessa estrutura foi o racismo científico. O Estado brasileiro não operou apenas sob a "Eugenia Positiva" (branqueamento via miscigenação); ele praticou ativamente a Eugenia Negativa, inspirada em figuras como Eugen Fischer. O objetivo era a segregação absoluta para evitar a "degeneração" dos núcleos europeus pelo contato com brasileiros nativos.
Intelectuais como Renato Kehl e Salvador de Toledo Pisa Júnior defendiam que o nacional era "feio" e "doente", justificando a criação de ilhas de "pureza" racial no Sul e Sudeste. O Estado usou o determinismo climático para empurrar negros e mestiços para o Norte e Nordeste, enquanto concentrava investimentos em infraestrutura nas regiões destinadas aos "arianos".
"Através do prisma social o casamento do branco com preto... deve ser considerado na situação presente como uma união repugnante." — Salvador de Toledo Pisa Júnior (1932).
O sistema econômico parido em 1889, composto pelo Banco Colonizador e Agrícola e pelos títulos de terra do Sistema Torrens, é a matriz direta do agronegócio moderno. Essa riqueza não é fruto de "mérito", mas de uma transferência massiva de patrimônio público para grupos estrangeiros específicos.
O legado desse processo é visível nos dados de desigualdade: brasileiros nativos levam nove gerações para sair da pobreza, enquanto sobrenomes europeus e japoneses dominam o topo da pirâmide econômica. Hugo Santar conecta essa estrutura à persistência do trabalho análogo à escravidão: o maior resgate da história (1.064 trabalhadores no Pará, em 2007) ocorreu em fazenda de descendentes de italianos. Casos como o da fazenda da Volkswagen e das vinícolas do Sul não são anomalias, mas sintomas de um ethos colonial que vê o brasileiro como mão de obra descartável em terra alheia.
A tecnologia mais refinada da recolonização foi a colonização das mentes. Através do "Mito do Imigrante Salvador", convenceu-se o brasileiro de que o estrangeiro veio para resgatá-lo de sua própria cultura dita inferior. Santar denuncia a manipulação do trauma da escravidão: ao focar o debate de descolonização apenas no período luso-brasileiro, a elite atual (descendente da recolonização republicana) torna-se "imune" e isenta de responsabilidade.
Neste cenário, surge a figura do "Colonizador Progressista": aquele que critica veementemente a herança de Portugal, mas silencia sobre a expropriação republicana pós-1889 para proteger seu próprio status. Ao capturar o discurso decolonial, esse grupo transforma a luta estrutural em pautas de comportamento, mantendo o controle sobre a narrativa histórica e sobre as instituições de memória. O brasileiro é induzido a assumir a culpa por uma estrutura que lhe foi violentamente imposta.
Reconhecer a recolonização é admitir que o Brasil é uma "Nação do Passado" — termo de André Rebouças que define um país onde o nativo foi subalternizado em prol de um projeto colonial de longa duração. A verdadeira descolonização não se faz apenas com símbolos, mas com a correção das assimetrias fundiárias e o desmonte do sistema de castas criado pela República.
O trabalho de Hugo Santarém Rodrigues, centralizado no projeto editorial "Nação do Passado", é um convite urgente para redescobrirmos a história sob a ótica dos vencidos. Precisamos entender que o "imigrante" foi um dispositivo jurídico de ocupação e que o brasileiro nato, de matriz indígena e negra, permanece sendo um estrangeiro em sua própria terra.
Se a estrutura colonial de 1889 foi projetada para ser irreversível, qual é o primeiro passo para que os brasileiros finalmente retomem a soberania sobre seu próprio território e memória?
PARA SABER MAIS SOBRE HUGO SANTARÉM:
DOCUMENTÁRIO



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