sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

HISTÓRIA DECOLONIAL E RESIGNIFICAÇÃO DO PATRIMÔNIO: O IMPACTO CONTEMPORÂNEO NAS NARRATIVAS DO TURISMO CULTURAL




Imagine que você está caminhando pelas ruas de paralelepípedos de Paraty, Ouro Preto ou pelo Pelourinho em Salvador. Você admira as fachadas brancas, as igrejas adornadas com quilos de ouro e os casarões de janelas coloridas. O guia turístico aponta para a arquitetura e fala sobre o "esplendor do ciclo do ouro" ou a "chegada da civilização europeia". Mas, e se as pedras dessas ruas pudessem gritar? E se a história que nos contaram fosse apenas a versão de quem segurava a caneta — e o chicote?

Estamos vivendo uma revolução silenciosa, mas avassaladora, na forma como entendemos o passado. Ela atende pelo nome de História Decolonial. Não se trata apenas de um termo acadêmico da moda mas sim de uma chave mestra que abre portas trancadas por cinco séculos de silenciamento. Prepare-se: ao entender este conceito, você nunca mais olhará para um monumento, um mapa ou para o próprio espelho da mesma forma.

Para entender a história decolonial, precisamos primeiro entender o seu "vilão": a Colonialidade. Muitos acreditam que o colonialismo terminou quando o Brasil declarou independência em 1822 ou quando as nações africanas se libertaram no século XX. No entanto, teóricos como o peruano Aníbal Quijano e o argentino Walter Mignolo nos alertam para um fato perturbador: o colonialismo político pode ter acabado, mas a colonialidade do poder, do saber e do ser permanece intacta.

A Colonialidade é como um software instalado em nossa cultura. Ela nos faz acreditar que o padrão de beleza é o europeu, que a ciência válida é apenas a produzida no Norte Global e que a história da humanidade é uma linha reta que culmina na civilização ocidental. A História Decolonial é o "vírus" benevolente que busca desinstalar esse software. Ela não quer apenas contar a história dos vencidos; ela quer mudar a lógica de quem define o que é importante ser lembrado. A construção desse pensamento não ocorreu no vácuo. Ela é fruto de mentes que decidiram olhar para o mundo a partir do "Sul Global". Desta forma, relacionamos a seguir os principais autores que estudando o que entendemos por "decolonialidade".

A) Aníbal Quijano e a Raça como Invenção:
Quijano revolucionou a sociologia ao demonstrar que a ideia de "raça" não existe na biologia, mas foi inventada pelos colonizadores para classificar seres humanos e justificar a exploração econômica. Sem a divisão entre "brancos", "índios" e "negros", o capitalismo mundial não teria se consolidado.

B) Walter Mignolo e a Desobediência Epistêmica:
Mignolo nos convida a desobedecer. Para ele, precisamos parar de pedir permissão à Europa para validar nossa sabedoria. Ele defende que o pensamento decolonial deve surgir das feridas coloniais, valorizando saberes ancestrais, línguas locais e filosofias não-ocidentais.

C) Catherine Walsh e a Pedagogia do Grito:
Walsh foca em como educar para a liberdade. Ela argumenta que a decolonialidade é uma ação contínua de criar algo novo, e não apenas de destruir o velho.


D) Frantz Fanon, o Alicerce:
Antes de todos eles, o psiquiatra antilhano Frantz Fanon já descrevia em Os Condenados da Terra como o colonialismo despersonaliza o indivíduo, fazendo com que o colonizado odeie a si mesmo e deseje ser o colonizador.

O Embate: História Tradicional vs. História Decolonial

A diferença entre as duas abordagens é abismal. A História Tradicional (muitas vezes chamada de positivista ou eurocentrada) foca no "Descobrimento". Ela narra a bravura dos navegantes, a diplomacia dos imperadores e a "evolução" de uma colônia agrária para uma nação moderna. Nela, indígenas e negros aparecem como "problemas de mão de obra" ou como figuras exóticas e passivas. A História Decolonial inverte o telescópio. Ela não fala em "Descobrimento", mas em Invasão. Ela não foca no palácio, mas na senzala e na aldeia. Ela prioriza:


A) RECONHECIMENTO HISTÓRICO - povos escravizados foram estrategistas políticos, criadores de tecnologias de mineração e heróis de resistência (como Zumbi e Dandara dos Palmares).

B) PLURALIDADE DOS TEMPOS - Enquanto a história tradicional diz que o Brasil "começou" em 1500, a decolonialidade lembra que este território já possuía habitantes, grupos sociais multiculturais com presença milenar.

C) MEMÓRIA, SABERES E CORPOS - A história não está apenas nos arquivos de papel, mas nas práticas culturais e saberes ancestrais que atravessam gerações.


Brasil: O Campo de Batalha da Memória

No Brasil, a história decolonial tem uma missão urgente: estilhaçar o mito da Democracia Racial. Durante décadas, fomos ensinados que o Brasil era um exemplo de convivência harmoniosa entre as raças. A decolonialidade expõe as cicatrizes desse processo, mostrando que a exclusão social de hoje é o resultado direto de um projeto de nação que buscou o "branqueamento" da população no século XIX e XX.

Ela prioriza o estudo de episódios como a Confederação dos Tamoios, a Revolta dos Malês e a Guerra de Canudos sob a ótica dos insurgentes, e não do Estado que os massacrou.

O Impacto na Prática: Turismo, Patrimônio e Identidade

Como isso afeta a sua próxima viagem de férias? O turismo está deixando de ser uma "bolha de contemplação" para se tornar uma experiência de consciência.

1. A Ressignificação do Patrimônio
Até pouco tempo, "Patrimônio Histórico" no Brasil era sinônimo de arquitetura colonial portuguesa. Se uma casa era de taipa e pertenceu a um liberto, ela era ignorada. Hoje, o movimento decolonial pressiona órgãos como o IPHAN a tombar terreiros de Candomblé, quilombos e sítios arqueológicos indígenas. Um exemplo emblemático é o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Por anos, ele ficou enterrado sob o asfalto, esquecido. Sua redescoberta e transformação em Patrimônio da Humanidade pela UNESCO é uma vitória decolonial: o reconhecimento de um local de dor que deve ser lembrado para que nunca se repita.

2. O Nascimento do Afroturismo e do Turismo de Base Comunitária (TBC)
O viajante moderno busca verdade. Isso gerou o crescimento do Afroturismo, onde roteiros em cidades como Salvador ou São Paulo focam na herança africana, levando turistas a conhecerem empreendedores negros, historiadores da comunidade e locais de resistência. No TBC, o turista se hospeda em comunidades quilombolas ou aldeias indígenas, onde a narrativa é controlada pelos próprios moradores. Não há "espetáculo para turista ver", mas sim um intercâmbio de saberes onde o lucro fica na comunidade.

3. A Guerra das Estátuas
Você já reparou em quem são as estátuas da sua cidade? Na maioria, homens brancos, armados, montados em cavalos. A história decolonial questiona: por que homenageamos bandeirantes que caçavam indígenas e não os líderes indígenas que defenderam a terra? Esse debate, que levou à queima simbólica da estátua de Borba Gato em SP, é a história decolonial saindo dos livros e ocupando as ruas.


Um Convite à Desobediência

A História Decolonial não quer apagar o passado europeu, mas quer tirar dele o monopólio da verdade. Ela nos convida a ser "desobedientes" e a questionar as placas de museus, as vozes dos guias e os capítulos dos livros escolares.

Ao abraçarmos essa visão, o Brasil deixa de ser uma "cópia malfeita da Europa" para se revelar como uma potência de diversidade, resistência e criatividade única no mundo. O passado é um território em disputa, e a boa notícia é que agora você também tem as ferramentas para ocupá-lo.

O que você acha de começar essa jornada hoje? Da próxima vez que visitar um centro histórico, pergunte: onde estão as mãos que construíram tudo isso?


Referências Bibliográficas

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.

MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.

RESTREPO, Eduardo; ROJAS, Axel. Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamientos. Popayán: Universidad del Cauca, 2010.

WALSH, Catherine. Interculturalidade crítica e pedagogia decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver. In: CANDAU, Vera Maria (org.). Educação Intercultural na América Latina: entre concepções, tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.




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