quarta-feira, 8 de abril de 2026

ARAXÁ E DONA BEJA: UM ROTEIRO ENTRE O MITO, A HISTÓRIA E AS NOVELAS DE ÉPOCA

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Araxá, no Triângulo Mineiro, é um destino onde o tempo parece fluir em ritmos diferentes. Para muitos, é a terra das águas curativas; para outros, o cenário de uma das biografias mais distorcidas pela ficção brasileira. No centro de tudo está Ana Jacinta de São José, a célebre Dona Beja.


Ana Jacinta no Século XIX. Acervo Museu Hístorico Dona Beja





















Se você busca um destino que une turismo histórico e turismo cinematográfico, Araxá oferece uma jornada única. Neste artigo, mergulhamos nas fontes históricas para separar o fato da ficção e entregamos o roteiro definitivo para você viver a "experiência Beja" sob uma ótica mais realista e humana.

A História Real: Além do Estigma da Cortesã

Para entender Dona Beja, é preciso desconstruir o que as novelas popularizaram. Pesquisas históricas recentes e registros paroquiais sugerem que a imagem de Beja como uma cortesã que mantinha um "bordel de luxo" pode ter sido uma construção social da elite da época para manchar sua reputação.

Na realidade, Ana Jacinta foi uma mulher de negócios extremamente bem-sucedida. O escândalo que realmente abalou a Araxá do século XIX não foi a prostituição, mas sim seu relacionamento desafiador com o Padre Joaquim de Almeida Perez. Historiadores apontam que sua filha teria sido fruto desse envolvimento com o clérigo, o que, na sociedade da época, era uma heresia social imperdoável. Beja não era uma mercadoria; era uma mulher independente que escolhia seus parceiros, o que era confundido (propositadamente ou não) com a vida de cortesã pelos seus detratores.


Memorial de Araxá. Fonte: http://www.exploremg.com/2020/09/o-que-fazer-em-araxa.html















A Chácara do Jatobá: O Centro do Poder Paralelo

O local mais emblemático dessa independência foi a Chácara do Jatobá. Embora a edificação original não exista mais — situando-se onde hoje é a região do bairro Santa Rita — ela permanece como o pilar central da narrativa de Beja.

Diferente de sua residência na cidade, a Chácara era o local onde Beja exercia sua autonomia longe dos olhos da Igreja Matriz. Era ali que ela recebia políticos e fazendeiros para reuniões de negócios e festas privadas. Visitar a região onde a chácara se situava ajuda a compreender a geografia da exclusão: Beja estabeleceu seu refúgio fora do núcleo central para que suas próprias regras prevalecessem. Hoje, o espírito da chácara vive nos objetos preservados no museu e na memória oral da cidade.

O Roteiro Turístico: Passos de Ana Jacinta

1. Museu Histórico de Araxá – Dona Beja

Localizado em um casarão colonial na Praça Coronel Adolpho, este é o coração do turismo histórico.


Museu Histórico Dona Beja.
Fonte: http://www.exploremg.com/2020/09/o-que-fazer-em-araxa.html















  • O que ver: O acervo contém o mobiliário original de Beja e, crucialmente, o seu testamento. Analisar esses documentos permite ver a Beja empreendedora, preocupada com a herança de suas filhas e com a gestão de suas terras, muito longe da personagem unidimensional das telas.


Grande Hotel Araxá
Fonte: http://www.exploremg.com/2020/09/o-que-fazer-em-araxa.html












2. Complexo do Barreiro: O Palco Cinematográfico

Para os fãs do turismo cinematográfico, este é o cenário principal. O Grande Hotel, inaugurado em 1944, evoca o glamour que as produções da TV atribuíram à vida de Beja.


  • A Fonte de Dona Beja: É o local místico onde a lenda diz que ela se banhava. Embora o "banho nua" seja um elemento de forte apelo visual nas novelas, historicamente as águas do Barreiro já eram conhecidas por suas propriedades medicinais, e Beja, como uma mulher que valorizava sua saúde e estética, certamente usufruía desses recursos naturais.


Fonte Dona Beja.
Fonte: http://www.exploremg.com/2020/09/o-que-fazer-em-araxa.html



















3. Ruínas e Memória: Estrela do Sul (Antiga Bagagem)

A 160 km de Araxá, esta cidade guarda os capítulos finais. Beja mudou-se para lá para fugir do julgamento implacável de Araxá. Visitar o local onde ela viveu seus últimos dias é entender o preço que uma mulher do século XIX pagava por não aceitar o papel de submissão

Visitar Araxá sob a ótica de Dona Beja é um exercício de compreensão social. Entre o mármore das termas e o papel amarelado do inventário no museu, descobrimos que a maior força de Beja não foi o desejo que despertava, mas a coragem de assumir sua fortuna, seus amores e sua maternidade em um mundo que queria silenciá-la.


Bibliografia e Referências Consultadas

Esta pesquisa baseou-se em cruzamentos entre a literatura biográfica e estudos revisionistas sobre a vida de Ana Jacinta de São José:


Fontes Bibliográficas e Acadêmicas:

  • LEONARDOS, Thomas. Dona Beja: A Feiticeira do Araxá. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957. (Obra que estabelece a base da lenda).

  • MUSEU HISTÓRICO DE ARAXÁ. Inventário e Testamento de Ana Jacinta de São José. Documentação Primária (Acervo Físico).

  • VASCONCELOS, Diogo de. História Antiga de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.

  • SOUZA, Gustavo. A Memória da Televisão Brasileira: O Fenômeno Dona Beija. São Paulo: Ed. Contexto, 2004.

Fontes de Pesquisa Audiovisual e Revisionista:

  • CANAL LENDO A HISTÓRIA. A Verdadeira História de Dona Beja: Entre o Mito e a Realidade. (Pesquisa documental sobre a relação de Beja com o Padre Joaquim de Almeida Perez e a refutação da prostituição como atividade econômica).

  • ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO (APM). Registros de batismo e posse de terras na Comarca de Paracatu e Araxá (Século XIX).








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sexta-feira, 3 de abril de 2026

TREINAMENTO PARA GUIAS DE TURISMO EM ARQUITETURA DA CENTRAL DO BRASIL/RJ

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Se você é um profissional que atua no cenário vibrante do Rio de Janeiro, sabe que a cidade é um museu a céu aberto. No entanto, para oferecer uma experiência diferenciada, é preciso ir além do óbvio. É com esse objetivo que apresentamos o evento Palácios de Poder Roteiro 2: Central do Brasil, uma oportunidade imperdível de capacitação profissional para quem deseja dominar a narrativa histórica e arquitetônica da nossa capital.

Por que este treinamento é essencial para o Guia de Turismo?

O mercado atual exige que o guia seja um intérprete do patrimônio. Este roteiro foca em três pilares que transformam a condução de grupos em uma verdadeira aula de campo:

  1. Reconhecimento de espaços: Identificar as camadas históricas em meio ao fluxo urbano.

  2. Usabilidade de territórios: Aprender como integrar locais de memória no cotidiano dos roteiros turísticos.

  3. Expansão da leitura arquitetônica: Decifrar os estilos que moldaram a "Paris dos Trópicos".

Ao participar deste curso de especialização, você eleva o valor do seu serviço e se destaca pela profundidade do conteúdo oferecido aos seus clientes.


O que vamos explorar?

A programação foi pensada para unir teoria e prática de forma dinâmica. Durante a manhã, mergulharemos no Ecletismo e na ruptura do Neoclassicismo, com uma visita mediada ao imponente Palácio da Moeda (Arquivo Nacional).

Na parte da tarde, o foco será o Palácio Vermelho (Quartel Central do Corpo de Bombeiros), seguido de um tour arquitetônico detalhado. É a chance perfeita para garantir sua vaga no treinamento e entender o apogeu do Ecletismo no Rio de Janeiro.

Detalhes do Evento:

  • Carga Horária: 8 horas de imersão cultural.

  • Público-alvo: Guias com Cadastur, agentes de viagens, estudantes de turismo e empreendedores do setor.

  • Diferenciais inclusos: Aula em "Roda de Saberes", e-books exclusivos sobre os locais visitados e Certificado Digital de Participação.


Invista na sua carreira

O conhecimento é o maior ativo de um guia. O investimento cultural para este roteiro técnico é de R$ 100,00, com condições especiais de R$ 90,00 para afiliados MasterClass Turismo e alunos da Professora Nani Rodrigues (via Pix).

Não perca a chance de atualizar seu repertório e oferecer roteiros muito mais ricos e embasados.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

RECOLONIZAÇÃO OCULTA: 7 REVELAÇÕES SOBRE O "MITO DA IMIGRAÇÃO" QUE MUDAM A HISTÓRIA DO BRASIL

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Existe um desconforto latente na medula da sociedade brasileira, uma sensação persistente de que "algo deu errado". Historicamente dividida e em constante tensão, a população sente o peso de uma engrenagem que range, mas não avança. Para conter essas tensões e forjar uma coesão social artificial, as elites construíram uma "história oficial" — uma narrativa higienizada que funciona como um potente anestésico social.

A pesquisa de Hugo Santarem Rodrigues estilhaça esse mito fundador da República. Não estamos diante de uma simples onda migratória de braços cansados em busca de oportunidade; a tese central de Santar revela que o Brasil, após o golpe de 15 de novembro de 1889, foi submetido a um processo planejado de recolonização. O que chamamos de "imigração" foi, na verdade, uma engenharia social de substituição demográfica, desenhada para silenciar o nativo e consolidar um sistema de exclusão que é a raiz da nossa abissal desigualdade contemporânea.

A historiografia tradicional trata a proclamação da República como um movimento isolado de progresso, mas a realidade documental conecta o golpe de 1889 diretamente à Conferência de Berlim (1884-1885). Enquanto as potências europeias partilhavam a África, o Brasil republicano adotava internamente os mesmos sistemas coloniais internacionais. O regime positivista não apenas se inspirou no Novo Imperialismo, como cooperou ativamente com companhias colonizadoras estrangeiras — alemãs, italianas, japonesas e britânicas.

O território brasileiro tornou-se um dos principais destinos mundiais de uma colonização dirigida, financiada por subsídios públicos e operada por empresas privadas que funcionavam como estados dentro do Estado.

"A mentira que sempre nos contaram é que o Brasil não tomou parte desse processo que mudou inteiramente o mundo."

Não há compreensão possível desta realidade sem encarar o conceito de Colonialismo de Povoamento, formulado por Patrick Wolf. Diferente da colonização de exploração, esta modalidade opera pela lógica da eliminação: o objetivo não é apenas explorar o trabalho do nativo, mas eliminá-lo ou deslocá-lo para substituí-lo por colonos estrangeiros, construindo uma nova sociedade sobre o território expropriado.

A grande manobra do Estado brasileiro foi a substituição do termo "colonizador" por "imigrante". Enquanto "colonizador" evoca a invasão e a violência, "imigrante" sugere o pioneirismo heroico e a busca por progresso. Essa troca de nomes operou um apagamento do caráter invasivo da ocupação territorial republicana e transformando a expropriação em "desenvolvimento".

Um dos pilares mais brutais dessa recolonização foi a segregação institucionalizada por decretos. Longe de promover a integração, a República agiu para impedir que o brasileiro nato tivesse acesso à terra, reservando as melhores áreas e toda a infraestrutura estatal para o estrangeiro europeu.

A pesquisa de Hugo Santar detalha como o Estado limitou a presença de nacionais em colônias oficiais:

Teto de 25%: Estabelecido pelo Decreto 528 de 1890 para famílias nacionais em colônias com infraestrutura do governo.Teto de 20%: Fixado pelo Decreto Estadual de SP nº 272 (1894) para lotes rurais.Teto de 10%: Determinado pelo Decreto nº 645 (1907) para núcleos auxiliados pela União.

A lei era explícita: o brasileiro era admitido nesses núcleos apenas para a "transferência de saberes", ou seja, para ensinar aos estrangeiros as técnicas de cultivo locais (permutar ensinamentos práticos). O nacional foi relegado a uma posição de subalternidade funcional, servindo como um "ajudante" em seu próprio território, enquanto o colono recebia o título de proprietário e o crédito estatal.

Para viabilizar essa substituição demográfica, a República importou da Austrália colonial o Sistema Torrens. Essa ferramenta jurídica utilizava a raça como critério de posse, baseada na doutrina da Terra Nullius (terra de ninguém). Sob esse pretexto, territórios ocupados por populações consideradas "não civilizadas" (indígenas, pretos e mestiços) eram declarados vagos e entregues a companhias colonizadoras.

Decretado em 31 de maio de 1890 por Rui Barbosa, o Sistema Torrens gerou títulos de terra irrevogáveis que serviam como ativos financeiros, criando riquezas geracionais exclusivas para os novos colonos. Mas esse sistema foi batizado em sangue. A imposição dessa ordem territorial resultou em massacres e guerras civis — como a Revolução Federalista, Canudos e o Contestado — que somaram mais de 50.000 mortos. Foi uma guerra de extermínio contra o brasileiro para abrir caminho ao "progresso" estrangeiro.

A base intelectual dessa estrutura foi o racismo científico. O Estado brasileiro não operou apenas sob a "Eugenia Positiva" (branqueamento via miscigenação); ele praticou ativamente a Eugenia Negativa, inspirada em figuras como Eugen Fischer. O objetivo era a segregação absoluta para evitar a "degeneração" dos núcleos europeus pelo contato com brasileiros nativos.

Intelectuais como Renato Kehl e Salvador de Toledo Pisa Júnior defendiam que o nacional era "feio" e "doente", justificando a criação de ilhas de "pureza" racial no Sul e Sudeste. O Estado usou o determinismo climático para empurrar negros e mestiços para o Norte e Nordeste, enquanto concentrava investimentos em infraestrutura nas regiões destinadas aos "arianos".

"Através do prisma social o casamento do branco com preto... deve ser considerado na situação presente como uma união repugnante." — Salvador de Toledo Pisa Júnior (1932).

O sistema econômico parido em 1889, composto pelo Banco Colonizador e Agrícola e pelos títulos de terra do Sistema Torrens, é a matriz direta do agronegócio moderno. Essa riqueza não é fruto de "mérito", mas de uma transferência massiva de patrimônio público para grupos estrangeiros específicos.

O legado desse processo é visível nos dados de desigualdade: brasileiros nativos levam nove gerações para sair da pobreza, enquanto sobrenomes europeus e japoneses dominam o topo da pirâmide econômica. Hugo Santar conecta essa estrutura à persistência do trabalho análogo à escravidão: o maior resgate da história (1.064 trabalhadores no Pará, em 2007) ocorreu em fazenda de descendentes de italianos. Casos como o da fazenda da Volkswagen e das vinícolas do Sul não são anomalias, mas sintomas de um ethos colonial que vê o brasileiro como mão de obra descartável em terra alheia.

A tecnologia mais refinada da recolonização foi a colonização das mentes. Através do "Mito do Imigrante Salvador", convenceu-se o brasileiro de que o estrangeiro veio para resgatá-lo de sua própria cultura dita inferior. Santar denuncia a manipulação do trauma da escravidão: ao focar o debate de descolonização apenas no período luso-brasileiro, a elite atual (descendente da recolonização republicana) torna-se "imune" e isenta de responsabilidade.

Neste cenário, surge a figura do "Colonizador Progressista": aquele que critica veementemente a herança de Portugal, mas silencia sobre a expropriação republicana pós-1889 para proteger seu próprio status. Ao capturar o discurso decolonial, esse grupo transforma a luta estrutural em pautas de comportamento, mantendo o controle sobre a narrativa histórica e sobre as instituições de memória. O brasileiro é induzido a assumir a culpa por uma estrutura que lhe foi violentamente imposta.

Reconhecer a recolonização é admitir que o Brasil é uma "Nação do Passado" — termo de André Rebouças que define um país onde o nativo foi subalternizado em prol de um projeto colonial de longa duração. A verdadeira descolonização não se faz apenas com símbolos, mas com a correção das assimetrias fundiárias e o desmonte do sistema de castas criado pela República.

O trabalho de Hugo Santarém Rodrigues, centralizado no projeto editorial "Nação do Passado", é um convite urgente para redescobrirmos a história sob a ótica dos vencidos. Precisamos entender que o "imigrante" foi um dispositivo jurídico de ocupação e que o brasileiro nato, de matriz indígena e negra, permanece sendo um estrangeiro em sua própria terra.

Se a estrutura colonial de 1889 foi projetada para ser irreversível, qual é o primeiro passo para que os brasileiros finalmente retomem a soberania sobre seu próprio território e memória?



PARA SABER MAIS SOBRE HUGO SANTARÉM:

DOCUMENTÁRIO







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HISTÓRIA DECOLONIAL E RESIGNIFICAÇÃO DO PATRIMÔNIO: O IMPACTO CONTEMPORÂNEO NAS NARRATIVAS DO TURISMO CULTURAL

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Imagine que você está caminhando pelas ruas de paralelepípedos de Paraty, Ouro Preto ou pelo Pelourinho em Salvador. Você admira as fachadas brancas, as igrejas adornadas com quilos de ouro e os casarões de janelas coloridas. O guia turístico aponta para a arquitetura e fala sobre o "esplendor do ciclo do ouro" ou a "chegada da civilização europeia". Mas, e se as pedras dessas ruas pudessem gritar? E se a história que nos contaram fosse apenas a versão de quem segurava a caneta — e o chicote?

Estamos vivendo uma revolução silenciosa, mas avassaladora, na forma como entendemos o passado. Ela atende pelo nome de História Decolonial. Não se trata apenas de um termo acadêmico da moda mas sim de uma chave mestra que abre portas trancadas por cinco séculos de silenciamento. Prepare-se: ao entender este conceito, você nunca mais olhará para um monumento, um mapa ou para o próprio espelho da mesma forma.

Para entender a história decolonial, precisamos primeiro entender o seu "vilão": a Colonialidade. Muitos acreditam que o colonialismo terminou quando o Brasil declarou independência em 1822 ou quando as nações africanas se libertaram no século XX. No entanto, teóricos como o peruano Aníbal Quijano e o argentino Walter Mignolo nos alertam para um fato perturbador: o colonialismo político pode ter acabado, mas a colonialidade do poder, do saber e do ser permanece intacta.

A Colonialidade é como um software instalado em nossa cultura. Ela nos faz acreditar que o padrão de beleza é o europeu, que a ciência válida é apenas a produzida no Norte Global e que a história da humanidade é uma linha reta que culmina na civilização ocidental. A História Decolonial é o "vírus" benevolente que busca desinstalar esse software. Ela não quer apenas contar a história dos vencidos; ela quer mudar a lógica de quem define o que é importante ser lembrado. A construção desse pensamento não ocorreu no vácuo. Ela é fruto de mentes que decidiram olhar para o mundo a partir do "Sul Global". Desta forma, relacionamos a seguir os principais autores que estudando o que entendemos por "decolonialidade".

A) Aníbal Quijano e a Raça como Invenção:
Quijano revolucionou a sociologia ao demonstrar que a ideia de "raça" não existe na biologia, mas foi inventada pelos colonizadores para classificar seres humanos e justificar a exploração econômica. Sem a divisão entre "brancos", "índios" e "negros", o capitalismo mundial não teria se consolidado.

B) Walter Mignolo e a Desobediência Epistêmica:
Mignolo nos convida a desobedecer. Para ele, precisamos parar de pedir permissão à Europa para validar nossa sabedoria. Ele defende que o pensamento decolonial deve surgir das feridas coloniais, valorizando saberes ancestrais, línguas locais e filosofias não-ocidentais.

C) Catherine Walsh e a Pedagogia do Grito:
Walsh foca em como educar para a liberdade. Ela argumenta que a decolonialidade é uma ação contínua de criar algo novo, e não apenas de destruir o velho.


D) Frantz Fanon, o Alicerce:
Antes de todos eles, o psiquiatra antilhano Frantz Fanon já descrevia em Os Condenados da Terra como o colonialismo despersonaliza o indivíduo, fazendo com que o colonizado odeie a si mesmo e deseje ser o colonizador.

O Embate: História Tradicional vs. História Decolonial

A diferença entre as duas abordagens é abismal. A História Tradicional (muitas vezes chamada de positivista ou eurocentrada) foca no "Descobrimento". Ela narra a bravura dos navegantes, a diplomacia dos imperadores e a "evolução" de uma colônia agrária para uma nação moderna. Nela, indígenas e negros aparecem como "problemas de mão de obra" ou como figuras exóticas e passivas. A História Decolonial inverte o telescópio. Ela não fala em "Descobrimento", mas em Invasão. Ela não foca no palácio, mas na senzala e na aldeia. Ela prioriza:


A) RECONHECIMENTO HISTÓRICO - povos escravizados foram estrategistas políticos, criadores de tecnologias de mineração e heróis de resistência (como Zumbi e Dandara dos Palmares).

B) PLURALIDADE DOS TEMPOS - Enquanto a história tradicional diz que o Brasil "começou" em 1500, a decolonialidade lembra que este território já possuía habitantes, grupos sociais multiculturais com presença milenar.

C) MEMÓRIA, SABERES E CORPOS - A história não está apenas nos arquivos de papel, mas nas práticas culturais e saberes ancestrais que atravessam gerações.


Brasil: O Campo de Batalha da Memória

No Brasil, a história decolonial tem uma missão urgente: estilhaçar o mito da Democracia Racial. Durante décadas, fomos ensinados que o Brasil era um exemplo de convivência harmoniosa entre as raças. A decolonialidade expõe as cicatrizes desse processo, mostrando que a exclusão social de hoje é o resultado direto de um projeto de nação que buscou o "branqueamento" da população no século XIX e XX.

Ela prioriza o estudo de episódios como a Confederação dos Tamoios, a Revolta dos Malês e a Guerra de Canudos sob a ótica dos insurgentes, e não do Estado que os massacrou.

O Impacto na Prática: Turismo, Patrimônio e Identidade

Como isso afeta a sua próxima viagem de férias? O turismo está deixando de ser uma "bolha de contemplação" para se tornar uma experiência de consciência.

1. A Ressignificação do Patrimônio
Até pouco tempo, "Patrimônio Histórico" no Brasil era sinônimo de arquitetura colonial portuguesa. Se uma casa era de taipa e pertenceu a um liberto, ela era ignorada. Hoje, o movimento decolonial pressiona órgãos como o IPHAN a tombar terreiros de Candomblé, quilombos e sítios arqueológicos indígenas. Um exemplo emblemático é o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Por anos, ele ficou enterrado sob o asfalto, esquecido. Sua redescoberta e transformação em Patrimônio da Humanidade pela UNESCO é uma vitória decolonial: o reconhecimento de um local de dor que deve ser lembrado para que nunca se repita.

2. O Nascimento do Afroturismo e do Turismo de Base Comunitária (TBC)
O viajante moderno busca verdade. Isso gerou o crescimento do Afroturismo, onde roteiros em cidades como Salvador ou São Paulo focam na herança africana, levando turistas a conhecerem empreendedores negros, historiadores da comunidade e locais de resistência. No TBC, o turista se hospeda em comunidades quilombolas ou aldeias indígenas, onde a narrativa é controlada pelos próprios moradores. Não há "espetáculo para turista ver", mas sim um intercâmbio de saberes onde o lucro fica na comunidade.

3. A Guerra das Estátuas
Você já reparou em quem são as estátuas da sua cidade? Na maioria, homens brancos, armados, montados em cavalos. A história decolonial questiona: por que homenageamos bandeirantes que caçavam indígenas e não os líderes indígenas que defenderam a terra? Esse debate, que levou à queima simbólica da estátua de Borba Gato em SP, é a história decolonial saindo dos livros e ocupando as ruas.


Um Convite à Desobediência

A História Decolonial não quer apagar o passado europeu, mas quer tirar dele o monopólio da verdade. Ela nos convida a ser "desobedientes" e a questionar as placas de museus, as vozes dos guias e os capítulos dos livros escolares.

Ao abraçarmos essa visão, o Brasil deixa de ser uma "cópia malfeita da Europa" para se revelar como uma potência de diversidade, resistência e criatividade única no mundo. O passado é um território em disputa, e a boa notícia é que agora você também tem as ferramentas para ocupá-lo.

O que você acha de começar essa jornada hoje? Da próxima vez que visitar um centro histórico, pergunte: onde estão as mãos que construíram tudo isso?


Referências Bibliográficas

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.

MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.

RESTREPO, Eduardo; ROJAS, Axel. Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamientos. Popayán: Universidad del Cauca, 2010.

WALSH, Catherine. Interculturalidade crítica e pedagogia decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver. In: CANDAU, Vera Maria (org.). Educação Intercultural na América Latina: entre concepções, tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.




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